Autoconhecimento, crenças e os sentidos

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Não seria incrível conhecer os segredos dos melhores traders do mundo? Suas forças, suas fraquezas, depurando o que existe de melhor entre os melhores, para depois elaborar um modelo ideal e infalível.

Mas mesmo que fosse possível esta façanha, será que você realmente conseguiria aplicar todo este seleto leque de habilidades? Você conhece suas limitações?

O que é autoconhecimento?

Temperamento, disponibilidade de tempo e recursos, psicológico para tolerar perdas. Estes são apenas alguns dos aspectos peculiares a você que podem inviabilizar as dicas mais valiosas do mundo.

Pare também para pensar em suas crenças. Suas ideias são realmente suas, ou alguém as plantou em sua cabeça? Nossas crenças influenciam cada aspecto de nossas vidas e nossa performance no mercado de renda variável não foge a esta regra.

Nossas crenças tem seu alicerce em um entendimento imperfeito do mundo e da vida, normalmente aquele espectro limitado captado pelos nossos sentidos.

Você confia nos seus sentidos?

A única forma de abordar estas questões é com uma revisão intelectual e racional da nossa “realidade” individual. Identificar como reagimos a situações de pressão, estresse e frustração também é um bom começo.

Autoconhecimento é fundamental

Você gosta de excitação e altas emoções? Ou se vê como uma pessoa calma e serena? Otimista ou pessimista? Sabe aquela estória do copo meio cheio ou meio vazio?

O comportamento de uma pessoa não é aleatório. A personalidade, assim como suas respectivas facetas, ditam nossas decisões, principalmente se você estiver alheio a esta questão.

Desta forma, conhecer a maneira como interagimos com o mundo, como absorvemos as informações, como tomamos decisões e como agimos em situações de estresse tornasse vital para o sucesso.

Traumas de infância, por exemplo, podem determinar muitas de nossas atitudes para o resto da vida. Muitas vezes você nem imagina, mas age de determinada maneira devido a um trauma que sofreu quando criança.

A autossabotagem está muito ligada a esta questão. Não é incomum criarmos obstáculos e empecilhos, consciente ou inconscientemente, para minar nossas chances de alcançar um objetivo.

No caso específico de um trader, algumas questões, também ligadas ao autoconhecimento, são mais fáceis de identificar, mas não menos importantes. Como, por exemplo, tempo e recursos.

Autoconhecimento
Algumas questões, também ligadas ao autoconhecimento, são mais fáceis de identificar. Como tempo e recursos.

Se você tem uma jornada de trabalho padrão, em horário comercial, é loucura querer operar no intraday. Será muito mais sábio olhar para gráficos no diário, buscando tendências de longo prazo.

Avalie também, com muito cuidado, qual é a sua disponibilidade de recursos para começar a operar. Infelizmente, com pouco dinheiro não é possível fazer um controle de risco adequado. E confie em mim, o risco que você toma será a única coisa possível de controlar em se tratando de renda variável.

Se você precisa de ajuda para se conhecer busque uma psicanálise. Instrução em finanças também não faria mal algum. Não existe nada de errado ou vergonhoso nisto. Muito pelo contrário e, além disso, pode ser o melhor investimento da sua vida.

Algumas pessoas podem achar que isso tem um preço muito alto, mas meter os pés pelas mãos no mercado de ações, por exemplo, pode custar muito mais caro. Derivativos dispensam comentários.

Suas crenças são realmente suas?

O que te move? O que te motiva? Podemos identificar três fatores básicos motivadores da jornada humana. O libido (sexo), enfatizado por Sigmund Freud. A fome (condições materiais), defendida por Karl Marx. E o poder (prevalência do mais forte), postulado por Friedrich Nietzsche.

Poderia citar uma quarta, a evolução espiritual individual, proposta pelos grandes profetas. Mas como nossa área de atuação é o mercado financeiro, julgo adequado deixar esta de lado, pelo menos por enquanto.

Independentemente de qual destas linhas você se identifique mais, não precisa ser um gênio para notar que todas elas permeiam nossa vida, na família, no trabalho e nos círculos de amizade.

Crenças
Se você não entende suas crenças, como pode entender o que está fazendo?

Talvez você se preocupe mais com o poder do que com qualquer outra coisa. Talvez ganhar o suficiente para sobreviver esteja de bom tamanho. Certamente há aqueles que só ficarão satisfeitos depois de comer o mundo todo.

Em maior ou menor grau, estas questões estão dentro de você e quase nunca nos damos conta de como elas moldam o que acreditamos, para onde seguimos e o que julgamos ser a “verdade” da vida.

Se você não entende suas crenças, como pode entender o que está fazendo? Se não entende claramente o que te move como escolher um caminho?

Resultados dependem de escolhas. Escolhas dependem de uma crença. Neste caminho inverso talvez tenha ficado mais claro o quanto suas crenças definem o seu sucesso ou o seu fracasso.

Agora pense comigo. Suas crenças são realmente suas, ou foram imputadas na sua mente por outras pessoas? Tente fazer uma autoanálise, da maneira mais fria e racional possível.

A sociedade, a religião, a mídia, família e amigos ajudaram a moldar suas crenças, não porque lhe deram opções e sim porque te convenceram de que isso ou aquilo é o melhor.

Os Sentidos

Somos seres sensíveis. Seguimos bombardeados por estímulos o tempo todo, vindos de todos os lados, e muitas pessoas podem até achar isso legal. Mas você confia nos seus sentidos? Se você ainda não sabe disso, quase que sinto em lhe informar, mas eles nos enganam o tempo todo.

Nós não vemos o que entra pelos nossos olhos. Não sentimos o que tocamos. Não ouvimos o que é captado pelos nossos ouvidos, e por aí vai. Tudo é filtrado no cérebro e encaixado em nossas crenças, preconceitos, cultura e dogmas. Ninguém sabe de verdade o que há lá fora.

Os sentidos
Nossos sentidos podem e vão nos enganar.

Veja este exemplo. Ao colocar um lápis na vertical dentro de um copo com água, o lápis parecerá quebrado. Ninguém duvida de que se trate de pura ilusão. Mas esta é uma que conseguimos identificar facilmente, quantas não passam desapercebidas?

A única forma para termos um vislumbre da realidade é através da razão pois os nossos sentidos podem e vão nos enganar. Inclusive esta premissa é a base da filosofia.

Poderia até citar dezenas de pensadores que chegaram a essa conclusão séculos antes da ciência moderna. Mas vou resumir com um fragmento de René Descartes.

“Os nossos sentidos, por vezes, enganam-nos. Ora, se os nossos sentidos nos enganam, ainda que apenas por vezes, então o melhor é não acreditarmos neles nunca.”

Razão é a faculdade de raciocinar, aprender, compreender, ponderar e julgar. A razão dá asas a lógica que, quase que como uma linguagem matemática, nos permite chegar a conclusões muito mais confiáveis do que simplesmente o que vemos ou ouvimos.

Conclusão

Se eu quebrar um pé é relativamente fácil de resolver. Eu sei onde está doendo, sei onde devo ir para resolver e posso perceber com clareza quando ele estiver bom. Mas, e quando estamos lidando com questões invisíveis, intangíveis e de cunho subjetivo?

É realmente longa e obscura a jornada do autoconhecimento. Não menos complicado é desvendar as origens das nossas crenças mais profundas.

Não me entenda mal quando enfatizo o cuidado que devemos tomar ao confiar em nossos sentidos. São dons incríveis, mesmo com suas limitações.

O fundamental é explorar nossa racionalidade para identificar forças e fraquezas ocultas.

Se você está começando a operar agora ou mesmo se tem bagagem no mercado, é prudente dar atenção a estas questões. Ignorá-las não vai fazer com que desapareçam. Muito pelo contrário, se não forem tratadas só tendem a crescer.

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